Pequim: cidade de 24 milhões de habitantes está vazia

Um professor brasileiro que atualmente leciona na China narrou, para a Folha de São Paulo, como está sendo os dias em Pequim após a descoberta do Coronavírus. Segundo ele, por lá, está uma cidade-fantasma. As pessoas praticamente não andam mais na rua e simplesmente não se vê muito movimento em lojas, shoppings e restaurantes. Confira:

“Na cantina universitária, não há quase ninguém. Sento-me numa mesa sozinho, mas logo vêm duas funcionárias da cozinha, sentam-se na minha frente, uniformes brancos e máscaras, alegres e simpáticas como boa parte do povo aqui. Nos cumprimentamos, a que está diante de mim arranca de uma vez sua máscara, reclamando que o elástico machuca a orelha, quase num gesto de desacato. Riem muito”, conta.

“Entendo tudo, pois sofro do mesmo incômodo. Sinto orgulho de compartilhar a mesa com as camaradas da cozinha. Quase ninguém, contudo, testemunha esse encontro.

No metrô, numa plataforma espantosamente semivazia, de 11 passageiros que embarcam apenas dois não possuem máscara. “Isso porque não encontraram à venda, estoques esgotados”, comenta um amigo. Se a poluição do ar já levou parcela considerável dos cidadãos de Pequim a portarem máscara, o coronavírus de Wuhan generalizou o uso.

O alarme foi dado em 31 de dezembro passado, nesta capital da província de Hubei, com casos graves do que parecia surto de pneumonia. Detectado um novo vírus, a epidemia se expandiu rapidamente. Até 29 de janeiro, a China confirmou 170 mortes e 7.700 pessoas infectadas. Em torno da área de Wuhan, o governo praticamente confinou mais de 50 milhões de pessoas. Em Pequim, também, há restrições ao acesso a lugares de grande público.

A ironia é que a qualidade do ar tem estado muito melhor em Pequim do que foi há poucos anos. O sol desponta no inverno, coisa que era rara até recentemente, mas não há quase ninguém nas ruas para usufruí-lo. Capital de quase 24 milhões de habitantes, Pequim parece ter se tornado uma cidade-fantasma.

Onde está a turma de aposentados do tai chi chuan na pracinha aqui do bairro? Onde as mães e avós habituais nas praças, as crianças soltas no alarido típico das manhãs frias que antecediam o Ano-Novo lunar (25 de janeiro)?

Onde a mulher da vendinha, aquela que mantém seu negócio aberto até às 23h30, dona de olhar triste e sorriso belo, sempre a ver uma telenovela que parecia sem fim numa pequena TV erguida entre bananas e mexericas?

Enquanto isso, sigo no passo da multidão que ora se recolhe. Jamais aprenderei a cochilar, como os chineses fazem, nos vãos mais inusitados da cidade. Onde, Pequim, você de fato se esconde? No parque das “Montanhas Perfumadas” (Xiangshan), aqui nos arredores do extremo noroeste da cidade? Colinas extremamente belas na floração do outono, agora vazias, que serviram, durante a guerra de libertação nacional e a revolução popular, de refúgio para setor importante do Partido Comunista”.

China constrói hospital para cuidar do coronavírus
Foto: Folhapress/ Divulgação

Pequim
Foto: Folhapress/ Divulgação

>Do Roberta Jungmann
>Via Dep. de Jorn. da Orobó FM, (Eraldo Albuquerque -Orobó; Quinta, 30 de Janeiro de 2020 -20h38m) 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>