Constelação familiar: processo terapêutico que revela os movimentos da alma

Imagine que boa parte dos sentimentos, atitudes e memórias de seus ancestrais reverberassem indiretamente em você. Como se houvesse efeitos do passado que, sem resolução, fossem transmitidos de geração em geração. E que, por consequência, causassem contradições e colocassem suas relações humanas em conflito. Foi durante uma viagem aos povos zulus, no continente africano, que o filósofo e teólogo alemão Bert Hellinger se atentou para a possibilidade de que esse resgate involuntário podia tornar as pessoas prisioneiras de questões de seus antepassados.

Observando os zulus, Hellinger percebeu que existia harmonia na humanidade desses povos, trazida em rituais e cultos que simbolizavam paz e força e cultuavam a ancestralidade. Quando retornou, encontrou uma Alemanha desconexa, ainda sofrendo com os abalos da Segunda Guerra Mundial. Em meio a isso, começou a buscar no processo de terapia sistêmica as mesmas ferramentas que observou na expedição. Assim, desenvolveu sua própria terapia sistêmica e familiar, difundida em 1999 na América Latina pelo nome de Constelação Familiar.

“A Constelação Familiar é uma compreensão da mente. Se fosse uma imagem, seriam pessoas dispostas em um grande círculo, onde todos pudessem olhar a diversidade que formam. É uma igualdade utópica. Se não existe equivalência entre os membros, os conflitos surgem”, explica a consteladora Ana da Fonte. 

O nome faz referência a uma constelação estelar, em que cada estrela ocupa seu lugar no grupo, formando um coletivo harmônico. Na prática, a Constelação trabalha uma ideia que o indivíduo tem e muitas vezes não sabe de onde vem, ajudando a desbloquear sistemas por meio de outros participantes do círculo que, normalmente, representam os ancestrais do constelado.

Da Fonte explica que, um dos princípios da Constelação Familiar é que cada papel que você representa está relacionado com um aspecto da sua vida que precisa ser observado. No campo social, o indivíduo acaba pegando pendências da sua família. “O objetivo é visitar o passado e tentar liberar o futuro, para não repetir histórias. É uma abordagem que mexe com estruturas dos ancestrais, que requer responsabilidade para não abrir um campo sem fechá-lo depois”, explica.

A secretária executiva Joicy de Lima da Silva começou integrar círculos de Constelação Familiar em 2018. Ela sempre assumia, como participante, o papel de mãe. Em sua própria constelação, inconscientemente, escolhia para os integrantes posições distantes dela mesma no círculo, sem contato entre eles. Quando fez uma dinâmica com meditação guiada para regressão à vida intra-uterina, sentiu um bloqueio vindo de sua própria mãe e não conseguiu sentir seus momentos pré-parto. Foi assim que Joicy disse ter descoberto que era adotada.

“Lembro das emoções expressadas pela pessoa que representou minha mãe no círculo e vi que não era um assunto fácil. Tomei coragem, falei com minha mãe e descobri que minha desconfiança estava certa. Ela havia me adotado.” 

Ter consciência disso fez Joicy entender que seus pais biológicos ofereceram o melhor que puderam dentro do que tinham para aquele momento. Ela entendeu também que as memórias genéticas que carregava eram a causa de seus bloqueios emocionais. “Foi a forma que encontrei de revisitar assuntos e ver novas semânticas para aquelas dores, até achar soluções. A constelação me fez entender que, no fim das contas, tudo foi feito da melhor forma.”

Sobre o caso, a consteladora Ana da Fonte explica: “Independentemente do que tenha acontecido, um pai e uma mãe nos deram a vida mas, dentro deles, ficam todas as memórias de dores que vieram antes e vai fazer com que você desequilibre.” Segundo ela, é importante colocar essas questões para fora através de outras pessoas que participam da constelação. “ É mais eficaz quando fazemos juntos, porque formamos uma unidade, mesmo tendo um todo dentro da gente. Temos uma sabedoria inata que busca a cura. O constelador apenas ajuda a identificar as feridas do passado e desbloquear missões que seus antecessores não completaram”, explica

Ao abrir uma constelação, é possível escolher participantes que simbolizam os familiares envolvidos em determinadas questões. É cumprindo esse papel que a jornalista Mariana Lins costuma participar das sessões. Ela nunca abriu sua própria constelação, pois sente que seu papel é dar o suporte para que outras pessoas liberem seus bloqueios. Fazendo isso, toca, indiretamente, em suas próprias questões. “Até o fato de a pessoa lhe convidar, e qual papel pede para você representar, tem um propósito. Definitivamente há uma troca energética que não fica somente com quem está constelando.” 

Essas trocas acabaram descortinando questões ocultas na vida de Mariana. “Algumas experiências foram tão fortes que eu penso no dia que eu tiver que constelar algo da minha vida. Preciso estar preparada para a carga que isso vai me trazer.” Ela considera o resgate de suas memórias algo muito delicado para ser acessado prontamente. “Você precisa de um tempo, e eu ainda não cheguei nessa proporção. Mas sei que é um ato de generosidade se colocar disponível para a história dos outros. É um olhar que fica mais sensível ao outro e a você. A gente vê tudo com mais generosidade, até nossas falhas.”
Segundo da Fonte, assumir um papel na história de alguém por si só, é funcional como terapia porque todo ser humano possui a mesma matriz. Essa ligação natural não deve ser confundida com práticas esotéricas. “Não é magia, nem espiritismo, nem coisa de outro mundo. Eu faço questão de dizer que é apenas o encontro de campos morfogenéticos. A própria constelação tem capacidade de nos apresentar o que está oculto.”

A prática vem se tornando tão sólida que foi incorporada ao rol das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) do SUS. “É reconhecida como uma terapia, e não só por questões familiares. Quem resolve abrir uma constelação pode apresentar sintomas físicos, problemas relacionais, profissionais, judiciários. Qualquer questão séria que esteja latente pode ser constelada”, esclarece da Fonte. 

No âmbito judiciário, a Constelação Familiar vem sendo utilizada como técnica de terapia no combate a divergências e conflitos desde o ano de 2016. O Tribunal de Justiça de Pernambuco, por exemplo, segue a Hellinger chamada de “ordem do amor”, constituída por três leis básicas: pertencimento, que defende que todos têm direito de pertencer a uma família; hierarquia, que estabelece que, quem chega primeiro, tem predileção sobre aqueles que chegam depois; e o equilíbrio, que implica na igualdade de dar e receber entre os membros de uma mesma família.

Constelação na reconciliação paterna

Ana Paula Nunes participou de uma constelação para buscar a reconciliação com o pai, de quem cobrava mais afeto

Ana Paula Nunes participou de uma constelação
para buscar a reconciliação com o pai,
de quem cobrava mais afeto

Crédito: Paullo Allmeida/ Folha de Pernambuco

Foto Destacada/ Crédito: Paullo Allmeida/ Folha de Pernambuco
>Da Folha de PE
>Via Dep. de Jorn. da Orobó FM, (Eraldo Albuquerque -Orobó; Domingo, 11 de Agosto de 2019 -17h03m)

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